A
maioria das negociações é ganha ou perdida
de acordo com a qualidade da sua preparação. Há
até quem diga que quem não leva a sério
a preparação de algo está se preparando
para o fracasso. A preparação é o dever
de casa e nós não gostamos de fazê-lo inventando
uma série de desculpas, como falta de tempo ou acreditando
que na hora podemos improvisar. Quem tentar improvisar, estará
numa tremenda desvantagem, sobretudo se encontrar um outro lado
bem preparado. O fato é que como negociamos
Negociar faz parte do nosso dia-a-dia e o desenvolvimento da
habilidade de negociação é fundamental
para qualquer pessoa não só na sua vida profissional,
mas igualmente em sua vida particular. Negociação
é o processo de alcançar objetivos através
de um acordo, nas situação em que existam interesses
comuns e opostos, isto é, divergências. E a existência
de interesses conflitantes acaba redundando em tensões
e antagonismos que freqüentemente desvirtuam a maneira
como percebemos a outra parte, nos levando a confrontos pessoais
que nos fazem até perder a noção do porquê
e para que estamos negociando. Ou seja, perdemos o foco, nos
afastamos ou esquecemos de nossos próprios objetivos
e ficamos presos a aspectos secundários e irrelevantes.
A melhor maneira até hoje encontrada para tratar com
todas estas questões é através da preparação
da negociação. Esta atividade redunda em aumento
do nosso poder de persuasão e na possibilidade de identificarmos
e aproveitarmos as oportunidades existentes e de encontrarmos
soluções positivas para ambas as partes. De maneira
geral, o desenvolvimento da habilidade de preparação
de uma negociação passa por três fases:
FASE 1
Esta fase é típica dos negociadores iniciantes,
muitos dos quais tiveram algum tipo de treinamento em vendas,
sobretudo em como superar objeções ou então
em argumentação e debate.
Nesta fase o negociador orienta todo o seu esforço de
preparação pensando nas maneiras de persuadir
a outra parte a aceitar a sua posição, sem dar
a menor consideração às idéias,
posições e interesses do outro lado. Pensa só
nos seus argumentos. O negociador que está nesta fase,
no fundo, gostaria de ser um grande hipnotizado, capaz de fazer
com que a outra parte se submetesse inteiramente à sua
vontade.
Na prática, este tipo de preparação leva
ao conflito e à conscientização de que
numa negociação existe também um outro
lado, que é capaz não só de apresentar
contra-argumentos, mas é, igualmente, capaz de apresentar
propostas surpreendentes, que deixam desconcertado o nosso negociador
da FASE 1.
FASE 2
Agora, o negociador está consciente de que existe a outra
parte, com seus próprios interesses e posições.
Portanto, a sua preparação consiste não
apenas em desenvolver sua argumentação e as possíveis
contra-argumentações à sua proposta, mas
também em antecipar as possíveis propostas da
outra parte.
Agora, estamos diante de uma luta de mocinho e bandido. O nosso
negociador FASE 2, é claro, é o mocinho que pretende
dar uma tremenda surra no bandido.
Se na fase anterior o desejo do negociador era o de ser o grande
hipnotizador, agora é de ser o melhor de todos os mocinhos,
ou seja, John Wayne. Acontece que o outro negociador também
pode achar que é o mocinho. Isto é o que se pode
chamar de preparação para o conflito máximo,
sendo muito provável que seja realmente o que acabe acontecendo.
Teremos um jogo de poder que, muito comumente, leva a desfechos
perde/perde, isto é, a conflitos e impasses que acabam
sendo prejudiciais aos dois lados. A maioria dos negociadores
não costuma desenvolver suas habilidades além
desta fase. Apenas uma minoria prossegue em direção
a fase seguinte.
FASE 3
O negociador quando chega a esta fase tem consciência
dos prováveis conflitos e de suas conseqüências.
Assim sendo, uma grande tempo da sua preparação
é gasta na procura dos pontos comuns, em encontrar formas
de introduzir os diversos aspectos do terreno comum na negociação
e em verificar como a mesma poderá ser desenvolvida a
partir destes aspectos.
Estes pontos comuns referem-se, não apenas, a aspectos
de ambas as propostas, mas igualmente, a outros assuntos, tais
como, a história passada de sucessos compartilhados,
metas comuns etc. O objetivo deste enfoque é procurar
gerar identificação e lembrar que os negociadores
não são inimigos, apesar das divergências,
mas pessoas que estão trabalhando para resolver um problema
comum ou para encontrar oportunidades que sejam mutuamente atraentes.
O que se quer evitar é a polarização. Quando
há polarização, cada uma das partes se
apega cegamente às suas posições e argumentos
e as conseqüências são conflitos que acabam
tornando as negociações extremamente penosas e
de resultados bastante duvidosos.
O negociador da FASE 3, quando efetua a sua preparação,
procura delinear o terreno comum e como e quando ir apresentando
os diversos pontos deste terreno comum.
Negociar desta forma é mais fácil e satisfatório
do que tentar estabelecer um acordo a partir de antagonismos.
O terreno comum existe na grande maioria dos casos, embora muitas
vezes, possa ser difícil encontrá-lo. Portanto,
o negociador FASE 3 prepara-se dentro dos seguintes esquema:
minha posição/terreno comum/posição
da outra parte.
Para isso é fundamental que se tenha pelo menos três
habilidade. A primeira é a capacidade de ver a situação
pela nossa ótica e pela do outro negociador. Embora negociação
não seja uma guerra, pode-se aplicar a ela a expressão
de Sun Tsu "Se você conhece a você e ao inimigo
não é preciso temer nenhuma batalha. Se você
só conhece a você, para cada vitória haverá
uma derrota. Se você não conhece nem a você
nem ao inimigo, você irá sucumbir em toadas as
batalhas". A segunda habilidade é a de sabermos
determinar com clareza quais são os nossos objetivos,
não os confundindo com as alternativas ou os meios de
que dispomos para alcançá-los.
Isto parece óbvio. Acontece que na prática esta
distinção nem sempre é muito fácil.
A melhor maneira que temos para evitar esta confusão
é nos perguntamos constantemente para que estamos negociando
para que possamos identificar e manter o nosso foco. Os nossos
objetivos estão relacionados aos nossos interesses, expectativas,
necessidades, desejos e temores. As alternativas são
as formas que encontramos para contemplar estes pontos. Quem
sabe a diferença, com certeza, negociará com muito
mais flexibilidade, encontrando vária formas de superar
impasses e vencer objeções.
A terceira habilidade é a de se saber formular alternativas
que, a partir do terreno comum, atendam aos interesses das partes.
Para isso é necessário, que sejamos bastante criativos,
empregando-se, inclusive, técnicas como a do brainstorming.
Saber preparar uma negociação é uma habilidade
fundamental, que se adquire sobretudo, a partir de um longo
aprendizado no qual, inevitavelmente, passaremos pelas três
fases que foram apresentadas. Mas o fato é que todo o
investimento que fizermos no sentindo de desenvolvermos esta
habilidade será imensamente recompensado.
(Reprodução permitida, desde que mencionada a
fonte e o livro Negociação Total)